23 de maio de 2018

Sem dó. Luli Penna (Todavia)


Há uma tendência, quase automática e, por isso, irritante e vexante, de quando certos círculos discutem qualquer acto criativo da parte de uma mulher, descrevê-lo como contendo “características femininas”, mas sem jamais as revelar, analisar, explicar e muito menos compreender o seu papel na articulação do texto total ou, menos ainda, contextualizá-las no sistema em que emerge. Esse termo é empregue de maneira fantasmática e mágica, como se o seu emprego fosse suficientemente explicativo de algo que, no fundo se recusa a tornar possível. Partindo de uma perspectiva homocêntrica, o que esse passe de magia cumpre é, no fundo, em primeiro lugar a criação de uma posição de “tolerância” que permite ao texto “feminino” a possibilidade de existência e circulação e, sem segundo e mais permanente lugar, a assunção do próprio sistema hegemónico que se confere o direito dessa mesma decisão. (Mais) 

20 de maio de 2018

Wonderstruck: o museu das maravilhas. Robert Selznick (Bertrand)


Perguntamo-nos se a publicação deste livro se deve a uma atenção para com a obra deste autor particularmente central na produção de livros cuja natureza se encontra nos interstícios e experimentação conjunta de várias disciplinas, que havia sido publicado em 2011, ou se terá antes a ver com uma esperança de que a sua versão cinematográfica, realizada por Todd Haynes e em exibição em Portugal este mesmo ano, possa suscitar interesse junto aos potenciais leitores. A resposta é, naturalmente, óbvia, até pela capa do livro (veja-se uma nota final), mas pelo menos isso torna-se garante da sua circulação entre o público português. (Mais) 

16 de maio de 2018

Colaboração no Bandas Desenhadas: Como falar com raparigas em festas, de J. C. Mitchell

Três pontos de convergência. 

Primo: a Bertrand publicou a adaptação do conto de Neil Gaiman por Fábio Moon e Gabriel Bá, de que já tinha antes falado, e para cujas considerações volto a remeter. 

Secondo: a adaptação cinematográfica, assinada por John Cameron Mitchell, do memorável Hedwig and the Angry Inch, apesar de pronta há um ano, estreia agora no circuito internacional e a sessão de imprensa em Portugal foi na semana passada. No fim deste mês, estará em exibição. Em suma: pfff.

Tertio: o site Bandas Desenhadas permitiu-me assistir à mesma, convidando-me a escrever uma resenha ao filme. 

Vi e fiz, num registo bem distinto do que costuma ser o linguarejar do Lerbd. Para pior, claro. Texto aqui.

Nota final: agradecimentos à Bertrand, pelo envio do livro, e ao BD.com, pelo acesso. 

13 de maio de 2018

O maestro, o cuco e a lenda. Wagner Willian (Texugo/Polvo)


Poderíamos começar por dizer que Wagner Willian apresenta aqui uma narrativa aparentemente mais domesticada do que aquela de Bulldogma. Até mesmo em termos do género em que se inscreveria, O maestro, o cuco e a lenda seria colocado nesse tão vasto território da “aventura de fantasia para a infância e juventude”. Afinal de contas, uma narrativa que nos revela um protagonista a regressar a um local da infância, e que, desviando-se para o bosque atrás da casa e graças a um acidente cai numa realidade extraordinária, permitindo-lhe descobrir toda uma vívida galeria de personagens, aproximá-la-ia, elemento por elemento, tropo por tropo, de um rol de títulos clássicos, desde Alice no país das maravilhas e O feiticeiro de Oz a As crónicas de Nárnia e Labyrinth. (Mais) 

10 de maio de 2018

Bartoon 25 anos. Luís Afonso (Arranha-Céus/Público)

Este pequeno volume celebra os 25 anos da tira Bartoon, de Luís Afonso, de uma forma curiosa. Convidando 25 personalidades, dos mais diversos papéis sociais (responsáveis por organismos públicos, académicos, artistas, desportistas, pessoas dos meios de comunicação social, e colegas do autor), a escolherem um conjunto de tiras que denotem as suas escolhas pessoas e algumas dimensões personalizadas desta obra, o leitor terá tanto acesso à própria obra como a estes 25 olhares distintos sobre ela. Acompanhadas essas selecções por breves parágrafos desses ilustres, vai-se desvendando também uma pequena mas personalizada teoria da recepção, significativa para melhor apreciar a tira. (Mais)

30 de abril de 2018

Best of 2017: para Paul Gravett.

Desde 2011 que participamos na chamada de Paul Gravett em contribuir para a "Perspectiva Internacional" do seu site, em que se mostram algum dos mais interessantes títulos de banda desenhada saídos no ano anterior de uma série de países, um trabalho muito interessante e bem mais diversificado do que o usual, por todas as limitações imagináveis.

Uma vez que já nos explicámos várias vezes sobre o que pensamos de listas e tops, continua a ficar apenas a nota que desejamos tão-somente que alguns destes livros tenham uma atenção mais alargada para além das nossas fronteiras e língua, e possam ser vistos como bons gestos no interior dos seus territórios, por mais distintos e incomparáveis que sejam entre si.

Este será o último ano em que participamos, passando a responsabilidade para o Gabriel Martins, a quem desejamos um bom trabalho. E ficam aqui também os profundos agradecimentos ao Paul Gravett e a sua amizade.

Link para a lista de 2017 aqui.

17 de abril de 2018

O reino. Ruppert & Mulot (Douda Correria)

Este será apenas um pequeno recado. Foi lançado recentemente uma edição portuguesa do magnífico objecto-jornal O Reino, da dupla experimentalista de banda desenhada Ruppert e Mulot, projecto este de que já havíamos dado conta na sua edição original há uns anos, aqui.

As mais das vezes, a existência de edições portuguesas não são propriamente motivo de júbilo, sobretudo se se seguirem os caminhos mais normalizados de sempre... Porém, neste caso não estamos a falar dessas máquinas comerciais já instituídas, mas tampouco de "apostas" em obras históricas ou significativas por plataformas editoriais sólidas, ou sequer das também agora usuais colaborações entre editoras nacionais e estrangeiras na publicação de um título. Trata-se, desta feita, de uma acção feita de paixão, risco e coragem.

A edição portuguesa deste jornal é feita pela Douda Correria, uma editora afecta sobretudo à poesia contemporânea e a outros objectos literários não-identificados. Não deixa de ser curioso que, para encontrarmos atenções particulares ao que ocorre na cena contemporânea mais afecta à experimentação, à verdadeira invenção da linguagem, e não apenas a sua clássica confirmação, não se possa contar propriamente com as plataformas mais comuns, mas sim de sectores inesperados. Ou, na verdade, não é nada curioso, é condição sine qua non dessa distribuição de atenção. Seja feita a sua vontade. 




15 de abril de 2018

Futuro proibido. Pepedelrey (Escorpião Azul)


Primeiro capitulo do que se adivinha ser uma longa saga de ficção científica, este volume de 60 páginas não irá satisfazer modos clássicos e contidos de constituir uma acção narrativa. Se começamos num local, rodeados de personagens que mal criam relações entre si para o leitor e começa a emergir uma possível intriga concentrada, logo há uma rasteira que impele todo esse mundo para segundo plano. Mas quando julgamos ter atingido um outro nível, que nos permitisse cartografar a dinâmica, dá-se outro salto. (Mais)

14 de abril de 2018

A leoa. Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg (G. Floy)


A longo prazo, será produtivo pensar na colaboração desta dupla de uma forma mais analisada. Tentar compreender como é que atingem uma fórmula de fundação sólida tal que a factura dos seus livros não pode ser considerada do ponto de vista de uma “história com desenhos” nem de “desenhos historiados”. Todos os factores contam na sua estruturação prístina, inconsútil, enquanto banda desenhada. A leoa é uma biografia da escritora dinamarquesa Karen Blixen, autora da famosa autobiografia África Minha (graças igualmente ao filme de Sydney Pollack de 1985), A festa de Babette, e de Contos e Inverno. Uma biografia que vai além desses instrumentos, pra devolver uma vida profunda, imaginativa e vivida dessa personagem. (Mais) 

11 de abril de 2018

Quireward # 03.

O terceiro número da Quireward está finalmente disponível. 

Com histórias em inglês, este número inclui: o terceiro e último episódio de "Matias", desenhado pelo Sérgio Sequeira; um capítulo auto-suficiente de uma série de ficção científica, "David Kino", desenhada pelo André Pereira; uma curta história desenhada pela Marta Teives; duas das peças antes publicadas na Cais desenhadas por Vasco Ruivo e Catarina Coroado - todas elas escritas por mim -; e uma história de Nuno Fragata à qual acrescentei texto. 

A capa é de Wagner Willian e o design de Playground Atelier. Impresso a uma cor em risografia. Será agora lançada em Portugal na Feira Raia, este fim-de-semana, no Anjos 70. 34 páginas. 100 exemplares.

[sobre # 01]

[sobre # 02]