8 de dezembro de 2016

Judea. Diniz Conefrey (Pianola)

Ao falarmos de Pereira prétend, falávamos de uma categoria de adaptações à banda desenhada de obras literárias que não se coadunava com as estratégias mais costumeiras da “facilitação” e “acessibilidade” dos originais. Não quer dizer que não existam transposições que, mantendo uma grande capacidade de “fieldade” para com os acontecimentos e a caracterização das personagens, não consigam ao mesmo tempo estruturar-se como obras acabadas por mérito próprio do seu campo de acção e expressão (alguns casos de Tardi, de Battaglia, o Milton de Auladell, o recente O astrágalo). Mas depois há aquelas que partem de uma base literária para se lançarem a pesquisas mais intensas do seu próprio meio e que entram num diálogo mais exigente com a teleologia e literariedade dos originais, sem que essa seja reduzida meramente à intriga. Surgem assim obras maiores como A cidade de vidro, Le château, O diário de K., alguns trabalhos de Breccia, o Disposession de Grennan. Nessas obras, como em poucas obras, há uma verdadeira preocupação em compreender a intensidade da matéria expressiva para criar transposições precisas – ali, as palavras, o fraseado, a sintaxe, a metáfora ou a sua ausência, aqui a composição, o burilar da superfície da imagem, o agenciamento das vinhetas em cadeias legíveis, a presença ou ausência de matéria verbal, a escolha de representações. (Mais) 

7 de dezembro de 2016

Pereira prétend. Pierre-Henry Gomont (Sarbacane)

Se os homens não são ilhas, alguns deles bem o tentam ser. Pereira, sem outro nome ou apodo que o torno à partida uma personagem cheia de vida, parece querer viver a sua vida no interior de uma redoma suficientemente confortável, longe dos tumultos que os outros agregam. Já lhe basta as agruras da viuvez e da solidão, mas que ao mesmo tempo o sustentam nesse seu isolamento. O pior é quando a força das circunstâncias, marés incontroláveis, impulsionam essas ilhas, afinal, para um arquipélago, senão novos continentes. Ora Afirma Pereira, o famoso romance do escritor Antonio Tabucchi, é a história de um homem cuja suposta mundividência, teimosa, atreita, esguia, é forçada a abrir-se para o verdadeiro mundo, por mais doloroso que isso possa ser. (Mais)

4 de dezembro de 2016

Les équinoxes. Cyril Pedrosa (Dupuis)

Há um fôlego na banda desenhada francófona contemporânea que parece alimentar o desejo de toda uma série de autores em construírem narrativas longas, densas e que procurem ocupar um nicho a que se poderia dar o nome de “o grande romance gráfico contemporâneo”. Até mesmo em termos de formato vemos apostas em volumes maçudos, de capa cartonada, com pormenores de valores de produção, alimentando materialmente o ensejo interior. Há casos de adaptações literárias, autobiografias ou reportagens ou relatos implicados, mas sobretudo projectos de ficção, como é o caso deste novo livro, do autor de Portugal. Se essa outra prestação nos parecia ter sido algo adocicada no seu tratamento do “outro” (que, no caso, corresponderia a um “nós”), o novo trabalho de Pedrosa procura um foco atomizado, mas com isso procura capturar uma experiência mais alargada de vida. (Mais)

2 de dezembro de 2016

Colaboração no The Comics Alternative: The Return of the Honey Buzzards, de Aimée de Jongh

Há tantos métodos de leitura quanto o seu próprio acto. A deste livro começa sobretudo em termos de um balanço. Na incessante busca e publicidade do "grande livro do ano", por vezes a crítica perde de vista respirações mais calmas da banda desenhada, que nem sempre passa por grandes tumultos mas passos incrementais. O primeiro livro "sério" da jovem artista flamenga Aimée De Jongh é um bom barómetro de um certo "estado da arte" sobretudo da escrita na banda desenhada contemporânea, que não se poderia tornar possível sem mais musculadas conquistas anteriores e até mesmo uma abordagem flexível de estilos vários, inclusive das bds em redes sociais (tumblr e afins).
Texto aqui.

26 de novembro de 2016

O meu Nelson Mandela e outros contos. Anton Kannenmeyer (Mmmnnnrrrg)

Depois do “sucesso” de Papá em África, não apenas em termos comerciais para a editora como para a sua recepção-discussão no nosso país (o ruído e os mal-entendidos são sempre fogo em caruma), o selo “para gente bruta” resolveu publicar mais uma pequena colecção de algum material do autor sul-africano. Provindo da sua parte, isto é, de “Joe Dog”, na revista Bitterkomix, este caderno surge por ocasião da presença de Anton Kannemeyer em Portugal na sua exposição integrada no Festival da Amadora. Desta forma, este pequeno volume serve de complemento à histórias do livro anterior, e onde aquele era uma espécie de radiografia a um imaginário interno e cultural partilhado, que tantas vezes reflecte igualmente fantasmas dos seus leitores, estoutro é mais focado na experiência própria do autor, como se houvesse a possibilidade de mostrar um balanço da sua vida como fruto das consequências da educação. (Mais) 

25 de novembro de 2016

O astrágalo. Sarrazin, Pandolfo e Risbjerg (G. Floy)

Baseado no romance de uma literal enfant terrible, e em muitos aspectos o seu molde original (se bem que, em termos masculinos, se poderia apontar “Antoine Doinel” ou os miúdos de Zéro de conduite – mas esta apropriação de género não deixa de ser absurda, já que a autora real foi longe nas suas acções e não foi longe na sua vida), esta banda desenhada recupera de forma perene e vincada a celebração de uma liberdade anti-burguesa que ainda hoje (ou outra vez hoje) é difícil de enquadrar. O romance homónimo de Albertine Sarrazin foi publicado em 1965. Curiosamente, o romance tornou-se novamente acessível [v. secção de comentários para nota sobre a primeira tradução] graças a uma edição portuguesa muito recente, publicada pela irrepreensível Antígona no mesmo ano da sua segunda adaptação ao cinema, ainda que infeliz e nomeadamente de uma forma negligenciável. Com efeito, esta versão planificada por Anne-Caroline Pandolfo e desenhada por Terkel Risbjerg – que constituem uma equipa com larga experiência – acaba por ser uma devolução superior da palavra, do humor e da verve de Sarrazin. (Mais) 

24 de novembro de 2016

Outro Mundo Ultra Tumba. Rodolfo Mariano (auto-edição)

Apesar de não conter uma lombada, este volume de mais de quarenta páginas, todas elas ocupadas por matéria gráfica-narrativa, constitui-se um verdadeiro álbum, apresentando uma narrativa organizada em torno de um só núcleo. Conforme havia sido prometido em As Crónicas da Cemitéria, há todo um universo de referências que é repetido, como se o autor trabalhasse sob a noção de “tema-e-repetição”, ou algo que equivalesse à metáfora de melodias sobre um tema. De novo vemos o regresso da figura antropomórfica da morte, ora sob a imagem de uma encapuzada de gadanha ora sob a de uma caveira, guitarras clássicas, espadas, ampulhetas e garrafas falantes, e personagens advindas de um caldo genérico de high fantasy e sword & sorcery: guerreiros cimérios, princesas sedutoras, druidas, criaturas maléficas, corvos, e acrescentando-se a este bestiário criaturas do espaço, como Chewbaccas ferozes. (Mais) 

21 de novembro de 2016

Mary Wept Over the Feet of Jesus. Chester Brown (Drawn & Quarterly)

Este pequeno e estreito livro não chega a trezentas páginas, sendo menos de duzentas aquelas que contêm banda desenhada propriamente dita. Como Brown já vinha fazendo desde os seus primeiros livros “sérios”, The Playboy e I Never Liked You, grande parte do volume é composto por notas, fontes bibliográficas explanadas, ancoramento que serve para reforçar ou re-contextualizar a sua obra banda desenhística. Escusado será adiantar que “a obra vale por si”, ou argumentos quejandos, já que este território tem espaço para toda a espécie de práticas, inclusive, o que nos parece ter aqui lugar, a de nos apresentar um “romance de tese”. Que tese será essa, já é um pouco mais difuso ou diluído, mas arriscar-nos-íamos a afirmar que se trataria de uma defesa da prostituição (ou alguma, se preferirem) como não apenas uma expressão livre da sexualidade como de um caminho legítimo para a assunção de poder da parte das mulheres (em determinadas sociedades, para mais, a ocidental de matriz judaico-cristã). (Mais) 

20 de novembro de 2016

Rendez-vous em Phoenix. Tony Sandoval (Kingpin Books)

A travessia de fronteiras, em alguns casos, não é vista como possível em termos de liberdade total, mas é ela que poderá determinar a possibilidade de conquistar uma vontade que, sem o seu alcance, é esmagada na inércia. Os Estados Unidos são vistos ainda, não sem razão, como um campo mais aberto e preparado para sonhos que parecem inalcançáveis noutros contextos, sobretudo se disserem respeito a vontades que vão bem para além da mera sobrevivência e começam a ocupar áreas de criatividade artística, como a banda desenhada. Ora, pelo menos em parte, era esse o fito que o artista Sandoval tinha em querer emigrar para os Estados Unidos: a de que seria aí que o seu sonho em se tornar autor de banda desenhada profissional se poderia cumprir. Este livro inicia-se num momento em que está à espera do momento ideal para atravessar a fronteira e tentar então nesse outro país a sua sorte. (Mais) 

17 de novembro de 2016

26 de Novembro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 1

Temos o prazer de anunciar o Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político, a cuja coordenação temos a honra pertencer. 

Trata-se de um ciclo de encontros, mesas-redondas, palestras académicas e conversas informais em torno da banda desenhada sob os signos de várias noções e princípios afectos a uma compreensão alargada da política. Utopia, cibernética, corpo, género/gender, cidade, são apenas algumas das palavras-chave a discutir, através de um corpus de banda desenhada o mais alargado possível, tornada ela no campo de objecto por excelência. Esta sessões decorrerão ao longo do resto de 2016 e durante o ano lectivo relativo a 2017, e anunciaremos cada sessão atempadamente.

Naturalmente, um foco na banda desenhada contemporânea portuguesa estará na linha da frente, e muitos dos encontros contarão com a presença dos ou das artistas para debater esses mesmos temas. A primeira sessão é já no dia 26 na Biblioteca Camões. 

Agradecimentos aos co-organizadores, às instituições envolvidas e a Marco Mendes, pela disponibilização da imagem do cartaz.

Mais informações na página do Centro de Estudos Comparatistas, ao qual pertencemos, assim como na página de Facebook